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sexta-feira, 7 de junho de 2013

A pera



A pera estava ali, num imobilizado exibicionismo, debruçada sobre a simplicidade de despeitadas bananas. Ele havia esperado até aquele momento para colhê-la, pois, ao contrário de ontem, ela se mostrava agora, desde um viçoso amarelo, que estava suficientemente madura para tornar-se definitivamente a fruta que dela se espera, ao desaparecer por entre os lábios, a língua e os dentes de um humano.

Após a primeira mordida, ele não sentiu no paladar a suculenta areia adocicada no que se transforma a carne de uma deliciosa pera madura. O gosto que lhe veio à boca foi o de um desenxabido sabor.

Experimentou, já desanimado pela frustração, mastigar um novo pedaço da pera, na esperança de que pelo menos o outro lado da fruta, por alguma razão, tivesse amadurecido. O mesmo gosto sem graça, o mesmo sabor de coisa nenhuma.

Olhou para a pera com olhos de quem olha para algo que já perdeu seu valor e, sem nem um outro sentimento além do de decepção, atirou-a no lixo.

Mal acabou de ouvir o barulho surdo da pera caindo no fundo do cesto, veio-lhe um pensamento perturbador. Tal como a pera, ele, àquela altura de sua existência, possuía a vivência e a aparência de alguém de quem se diz ter alcançado a tão ansiada maturidade. Seria isso mesmo verdade? Desde o seu ponto de vista, tal possibilidade estava muito longe de ser confirmada. Seria mesmo o caso de, segundo ele, em vez de jogar a pera sem graça, juntar-se a ela no mesmo salto em direção à inutilidade do que um cesto de lixo ajunta.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

... por enquanto o alívio não chegava...




... desafogado de obrigações que lhe privavam a existência no hiato dum domingo um veloz summertime coltraneano no mp3 a caneta bic ziguezagueando jazzisticamente no verso do papel de fundo do último pedido da pizza hut as palavras desviando das manchas de óleos das batatas fritas uma azia angustiante a vontade da efervescência de um sonrisal ainda arranjo um buraco na mucosa estomacal saco de imundícies abrir outra skol beats? e a porra do buraco? foi helena quem o arremessou para aqui diante do verso do papel de fundo do último pedido da pizza hut onde escreveria uma elegia pelo fim da companhia às salas de filme cult & às audições modorrentas do veloz sax de coltrane & às gostosas trepadas &  aos providenciais alquinhos a dois faz um mês já? porra o mesmo tempo que o buraco começou a aparecer as palavras desviando-se das bolas de óleo das batatas fritas e do O do fundo da skol beats quente o buraco aumentando já engoliu o estômago abrir mais uma skol beats? e a porra do buraco? helena summertime coltrane as palavras ziguezagueando em jazz no papel a caneta bic saltou agora por sobre uma enorme gota de catchup e de alguns respingos de mostarda e maionese a imundície que alarga o buraco no estômago mais alguns centímetros desde que helena não quis mais companhia para salas de filme cult & audições modorrentas do veloz sax de coltrane & gostosas trepadas & providenciais alquinhos a dois desde lá soube do buraco que se alargava um sonrisal agora seria providencial mas combina com skol beats? abrir mais uma? o papel de fundo do último pedido da pizza hut já quase não tem espaço para as letras da caneta bic ziguezagueante entre manchas de catchup mostarda maionese  O do fundo de skol beats helena helena  helena summertime summertine helena coltrane sonrisal a porra do buraco helena caneta bic helena helena skol beats trepadas gostosas sax maionese filme cult alquinho pizza hut jazz  mostarda helena helena pizza hut helena helena sonrisal sonrisal sonrisal skol beats helena trepadas gostosas a porra do buracão helena porra skol helena catchup não porra helena um sonrisal coltrane jazz não porra o buraco a helena ... por enquanto o alívio não chegava...

domingo, 12 de maio de 2013

Carolina



 (primeiro)

Certa vez, um tio meu me disse que se Chico tivesse feito tão-somente Carolina não precisava ter feito mais nada. Concordei plenamente. Passei mesmo a ter essa assertiva como uma máxima definitiva.



(segundo)

Máxima... Definitiva... Anunciação... Epitáfio...



(terceiro)

Eu a ouvi zilhões de vezes... zilhões de vezes... Mas não a escutei... (Como era mesmo? ... nos seus olhos fundos guarda tanta dor/a dor de todo esse mundo...)



(quarto)

 Como eu poderia supor: naqueles olhinhos serelepes, (irrequietos, eu diria), poderia caber toda a dor desse mundo???



(quinto)

... Isso eu não vira... Não naqueles olhinhos tão donos de si e dos meusinhos... tão opacozinhos... Cego ficara?



(sexto)

Depois vim a saber (a mãe dela me disse, entre envergonhada e profética): “Ela era bipolar...”



(sétimo)

Daí eu a odiar tanto quando em sua fase eufórica (aquela roda de rapazes em torno de uma incontrolável gargalhada dotada de sabedoria montada às pressas).



(oitavo)

Daí eu amá-la tanto quando em sua fase melancólica (que tanto confundi com anseio por cuidado, zelo, carinho, amor (?), talvez (?))



(nono)

Terá sido porque eu tenha levado rosas?!



(décimo)

Não sei, só pude supor o fundo de seu vazio quando ela quis beber o todo das águas do mar de Mundaú



(décimo-primeiro)

e só pude imaginar o quanto ela fora vertida em lágrimas quando quis recuperar a si mesma num tresloucado embebedar-se de água salgada trazida pela maré-alta.



(décimo-segundo)

Quando conseguiram arrebatar seu corpo aos braços do mar, de suas mãos escorreu lento um fino fio de areia: o chão que lhe faltou para sentir-se da banda de cá: o mundo que lhe ofereci em vão.



(décimo-terceiro)

(... como era mesmo?... o tempo passou na janela/e só Carolina não viu(?))

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Urubu malandro



Ao João Luiz, in memoriam



(aqui e agora)

[Agora seríamos eu meu bandolim a entoar novas e outras vibrações].

(do sonhar)

[O baque forte, firme, viril e seco de corpo caindo no piso de vermelhão troou no meu sonho de maneira diversa]

: tocava meu bandolim no alto do morro do Mendanha, um urubu, malandramente, sobrevoava minha cabeça, ora alto, ora baixo. De repente ele ganhou mais distância como pra pegar maior impulso. Aquele ponto negro alado foi se aproximando, se aproximando e ganhando uma absurda velocidade em minha direção. Continuei a tocar, mas meu corpo já vibrava mais que as cordas do bandolim. Um rasante rente à minha cabeça tirou meu escalpo e eu fui caindo de costas enquanto olhava o urubu ganhando novamente as alturas. Fui caindo lentamente, lentamente, lentamente... e PÃM!:

[o baque forte, firme, viril e seco de corpo caindo]

: o meu corpo numa pedra no pé do morro do Mendanha. Apesar do susto que me fez simular uma queda da cama, não acordei. A estranheza do sonho mudou de canal e eu já estava em outra paisagem que não lembro mais.

[Pudesse ficaria pra sempre naquela paisagem inominada e disforme. Pudesse não amanheceria jamais para o tumulto, para o terror, para a dor e para a tristeza provocada por aquele baque forte, firme, viril e seco de corpo caindo em concreto]

[naquela terça, tarde da noite].

(de trás pra diante)

No meu peito senti um misto de alegria profunda, indescritível, mas havia ao lado disso uma nódoa de tristeza que não queria se desmanchar,

[sei lá... um peso insustentável que me punha pra baixo tal como se eu tivesse sobre a cabeça uma enorme bigorna e desde o tórax um mim mesmo nascendo de novo, mas já do tamanho do que eu era!].

Não tive coragem de ir abrindo as linguetas pra ver o que tinha dentro

[o bandolim que eu tanto sonhara?].

Senti como se de repente eu não mais o merecesse, como se não mais precisasse dele, como se eu nunca fosse ver por meus próprios dedos ele se fazer em notas musicais. [Senti assim].

 (como?!)

Levantei e a atmosfera não era a mais a mesma,

[pressenti].

Não senti, entre o sono profundo e a vigília, aquele rosto de barba mal-feita a roçar o meu,

[como acontecia todas as manhãs, às vezes mais tarde, às vezes mais cedo].

(do enxergar)

Sentei-me na cama, olhei para o lado e ali estava: uma case preta com as linguetas prateadas cheirando àquele indecifrável cheiro de instrumentos novos,

[de como quando a gente ia juntos à Casa Betânia comprar encordoamento novo para o seu violão feito sob medida pelas mãos artesanais do luthier  Signorini].

(não.)

Já começava mesmo a sentir raiva daquele instrumento ridículo que agora pesava nas minhas costas como um fado que eu não pedira.

(não!)

A manhã amanhecia lenta: os primeiro raios de sol perfuravam a cortina do meu quarto e alcançavam a minha desalegria. Por nada eu sairia daquele quarto,

[inda mais que eu já ouvia agora uns soluços abafados que reconheci: eram de minha mãe. Só ouvi iguais a esse quando fiquei uma vez internado com dengue. Minha mãe soluçou assim, disfarçando a dor, enquanto o meu humor se alternava entre febres e náuseas].

Mas por que ela iria soluçar agora se eu estava ali no quarto feliz com meu presente, esperando só a hora d’eles entrarem de supetão e gritarem: “surpresa!”?.

[Que surpresa era aquela que o próprio presente a surpreendia?].

Não, não mesmo, eu não iria sair daquele quarto. Mais que isso: não deixaria ninguém entrar! Não queria mais saber de nada. Iria tapar os ouvidos para qualquer notícia e iria gritar mais alto que a voz de qualquer um que quisesse me contar alguma novidade. Não, eu só queria o antigo

: [pra trás a gente só pode é nascer de novo, pra frente a velhice e a.].

(por detrás de)

Ensimesmei-me

: [lesma para dentro de sua concha, recém-nascido de volta ao seu útero]. Silêncio. [Silêncio de.].

A porta do meu quarto ameaçou abrir.

[Viesse já?].

Eu não estava preparado pra nada. Rangeu na espessura do medo de quem tentava abri-la. Eu vi

: [a porta estava com medo!].

Eu não fiquei com medo da porta em si a ranger, pavor maior meu era do vazio em que ela se faria ao se desnudar em larga aba. Por mim ela permaneceria fechada para sempre,

[como meu sobressalto agora aquietado dentro do meu imobilismo; como o bandolim dentro da case, bem guardado pelas linguetas].

 [Mas essa tardança não se dá indefinidamente, uma hora ou outra precisamos enfrentar o que revela sua agônica demora].

E deu-se assim: minha mãe entre soluços e lágrimas deu sentido àquele baque forte, firme, viril e seco de corpo caindo na última terça feira,

[tarde da noite],



enquanto eu sonhava com bandolins, urubus malandros, vôos rasantes, escalpos, quedas, pedras e morros do Mendanha.

(o que pra ser não era)

Naquela manhã a quietude do Novo Horizonte foi quebrada não pela balbúrdia, mas pelo baque surdo do silêncio. O bom coração vagabundo de meu pai o levara para longe do roçar de sua barba em meu rosto em tolas manhãs. Antes disso ele já havia trocado o metrônomo pelo marca-passo, o cigarro pelo ar quase puro das caminhadas no parque Vaca Brava, a Skol pela Coca Zero, o que renovou as nossas esperanças,

[minha e de minha mãe],

de dias melhores por conta de boas melhoras em seu estado de saúde. Diagnosticou-se disritmia cardíaca

[um paradoxo para quem ditava o ritmo].

Ora, o que ele curtia era o chorinho e o chorão e não o samba de breque. A síncope era só permitida para tomar o “mé”. No mais, a extensão lancinante de cordas e sopros em pé na tábua, em bate papo, se machucando em doces melodias, modulando o pedacinho do céu.

(fatum?)

[É pouca a ironia?].

Pois bem, naquela noite de terça,

[tarde da noite],

ele voltava de uma apresentação no Centro de Convenções. Ele e o grupo dele fizeram a abertura do Congresso Mostra Saúde (!)

[por que ela não continuou se mostrando?!].

Chegou, deve ter beijado minha mãe, foi ao banheiro e

: [aquele baque forte, firme, viril e seco de corpo caindo no chão de vermelhão, vermelho e duro].

Eu não vi, só ouvi, pois estava demasiado ocupado a sonhar com urubus malandros... e bandolins... e quedas... e pedras... e morros do Mendanha...

(desde o ver)

Mais tarde, meu pai já não podia mais beijar,

[nunca mais],

com sua barba mal-feita, o meu rosto, em inesquecíveis manhãs. Seu corpo agora, sem disritmia cardíaca e sem o ritmo que ele ditava no violão artesanalmente feito pelo luthier Signorini, jazia sobre uma laje fria no Centro Comunitário do Setor Novo Horizonte, circundado por uma estranha formação que entoava chorinhos, choros e chorões sem violão, sem cavaquinho, sem o odiento bandolim, sem flauta,

[enfim].

(antes de)

Até então eu não tinha chorado, ensimesmado estava

: [lesma para dentro de sua concha, recém-nascido de volta ao seu útero]. Mas quando o Zé Geus empunhou sua clarineta e começou a entoar os primeiros acordes de Vibrações...

(era pra ser?)

Quando voltei a mim, estava deitado outra vez na minha cama. Vi pelos fracos raios de sol que varavam a cortina do meu quarto que o dia também já se ia. Olhei para o lado e ele continuava lá, dentro da case,

[as linguetas intocadas].

Já não tinha mais forças pra chorar. Fiquei assim com olhar voltado para o bandolim que jazia dentro da case preta.

[O sal de uma lágrima mal secada no canto do olho. Uma sobriedade alcançada pela exaustão].

(quando do porquê)

O ódio ao instrumento havia passado. Foi quando tive coragem de querer ver como ele era:

[plac... plac... plac...]

lingueta a lingueta fui desnudando-o. E lá estava ele sobre um delicado forro vermelho. Ele me olhava, refletindo em seu claro verniz a fraca lâmpada do meu aposento. Foi aí que entendi. Doloridamente entendi: ao chamar por meu pai aos berros lá no cemitério, eu chamava a mim mesmo.

(ungrunff!!!)

aí não, velho, cara, aí não, fui tomado de uma saudade, uma saudade foi me tomando, uma torrente de lágrimas foi me afogando, eu querendo verter aquela inundação que me fazia faltar o ar...

[a dor, o peso, o urubu de novo vindo em minha direção],

eu engolindo lágrimas e soluços, me senti miúdo naquelas vielas do Cemitério Memorial Batista, não vi mais ninguém,

[ninguém me via],

eu, a viela, a torrente de lágrimas, o Zé Geus, as vibrações da clarineta, daí...

[Deus!]...

o bandolim...

[Meu Deus!]...

[Deus meu!]...

eu não tinha deixado ele trancafiado na case?!... eu tinha... eu juro que eu tinha... ele veio... o som dele veio... me tomando... me dominando... fazendo estrago dentro de mim... aí eu não agüentei mais e gritei o maior grito que minha voz um dia gritará: [Joãããããoooo!!!!! Joãããããoooo!!!!! Joãããããoooo!!!!!].

(de diante pra trás)

Não quis me levantar da cama. Queria voltar a dormir urgentemente. Queria não ter pedido de presente aquele presente que eu tanto queria e que por tanto querer custaria um preço alto demais:

[o custo de toda uma vida].

[Que ele voltasse às avessas a ser madeira, depois árvore frondosa para pouso de fubazentos tico-ticos e de atrevidos bentevis; que as cordas voltassem a ser o informe e impenetrável aço, desde que aquela manhã se fizesse outra vez uma manhã como outra qualquer]

: com um simples roçar de barba mal-feita sobre o meu rosto que sorrindo fingia dormir.

(do sonhar)

Eu tinha ido dormir cedo naquela terça à noite.

[Sonhava, naquela profundidade abissal de que são feitos os sonhos infantis].

Fui dormir cedo por conta de uma promessa

[da qual me arrependo amargamente]

que tinha feito à minha mãe

: [“se não for dormir agora, não vai ganhar aquele bandolim que teu pai te prometeu”]. De verdade eu queria era um violão.

[Mas para o corpo de um menino de nove anos, um violão fica parecendo uma camiseta tamanho GG: esconde a gente: uns olhos grandões por trás de uma madeira inchada. Fica ridículo, ainda que o guri seja um exímio violonista].

Ele achava mais adequado um cavaquinho

: [pequeno, poucas cordas, peso e tamanho ideais].

Mas pra mim o problema tava justamente aí: depois de ouvir tantas vezes o Oscar Wilde tocando bandolim, não dava pra negociar: ele era de um formato mais arrojado: uma enorme pêra convexa de madeira, com quatro cordas a mais e quando trinado me levava mais longe que minhas corridas pelo meio da sala onde, em variadas formações, ele se derramava com seus companheiros de virar-a-noite: em jacós, valdirazevedos, pixinguinhas...